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TRANSUMANISMO: as críticas mais contundentes

As críticas ao transumanismo estão se tornando centrais no debate sobre o futuro da tecnologia, levantando questões profundas sobre ética, desigualdade e a própria definição de humanidade. Embora o movimento em si defenda a utilização das tecnologias — biológicas, genéticas, cibernéticas, de inteligência artificial — para ampliar as capacidades humanas e superar limitações como envelhecimento, doenças, ou até “upload” de consciência, são essas mesmas propostas que geram preocupações contundentes.

 Neste artigo, propomos realizar um mapeamento detalhado dos aspectos negativos, explorando os riscos profundos e os complexos dilemas éticos e filosóficos associados ao movimento transumanista. Esta análise se baseia nas mais recentes discussões e pesquisas sobre o tema. Considerando especialmente seu trabalho, Magna Regina Tessaro, nos campos da educação, ética e ciência, faremos um esforço para conectar essas críticas às implicações diretas para a área educativa.
 

Principais preocupações e críticas ao Transumanismo

Um dos pontos de preocupação mais frequentemente citados, ao se investigar as críticas ao movimento, refere-se ao seu potencial disruptivo no tecido social. Existe um risco significativo de que o transumanismo venha a ampliar exponencialmente a desigualdade social já existente. A principal apreensão é a criação de uma nova estratificação social, dividindo a humanidade em classes distintas: os “melhorados” tecnologicamente e os “não melhorados”.

 Conforme nota o artigo “Transhumanism as a positional good…”, este tema aparece de forma explícita. O texto argumenta que “muitas das melhorias que as pessoas irão desejar para os filhos serão vantajosas apenas em termos comparativos, não absolutos… [e] poderão agravar as desigualdades já existentes”. Isso sugere uma corrida onde o valor não está na melhoria em si, mas em estar tecnologicamente à frente dos outros.
 

Corroborando essa visão, um relatório crítico emitido pela University of East London (UEL) em julho de 2024 aponta que o transumanismo está “profundamente entrelaçado com a ideologia capitalista”. A promessa de “melhoramentos humanos”, segundo o relatório, aceita tacitamente uma premissa de mercado: aqueles com maior poder aquisitivo inevitavelmente terão vantagem e acesso prioritário a essas tecnologias.

 De forma similar, um site focado em críticas ao movimento complementa essa visão ao destacar “O lado sombrio do transumanismo”. Este lado sombrio inclui o “Acesso desigual, preocupações éticas sobre quem decide o que é melhoria, etc.”.
 

O sentimento é resumido na citação: “It is not difficult to imagine transhumanist biotechnologies … exacerbating the inequalities we already have at present.” (Não é difícil imaginar as biotecnologias transumanistas… exacerbando as desigualdades que já temos no presente.)

 Implicações para educação/ética

 
Transferindo essa discussão para o campo da Educação, as implicações são imediatas. É preciso refletir sobre como essas tecnologias de “melhoria” poderão exigir o desenvolvimento de novas e avançadas literacias tecnológicas. Mais grave, elas ameaçam criar divisões profundas entre escolas que possuem acesso a hardware de ponta ou estudantes “implantados” e escolas que não dispõem desses recursos. Diante desse cenário, a educação ambiental, a formação ética e a consciência social tornam-se pautas ainda mais relevantes e urgentes no currículo escolar. (veja também: https://inteligenciapedagogica.com/transumanismo-e-educacao-critica/)
 
 Avançando para outro pilar das críticas, encontramos uma objeção forte de natureza filosófica e ontológica. O transumanismo é frequentemente acusado de promover uma visão reducionista do ser humano. Nessa perspectiva, o indivíduo é visto meramente como um “corpo-máquina” ou uma complexa combinação de dados e algoritmos, negligenciando dimensões fundamentais da experiência humana, como a espiritual, a existencial e a própria vivência corpórea.
 

Um artigo específico, intitulado “The Logical Inconsistency of Transhumanism”, aprofunda essa questão. Ele sustenta que o movimento transumanista se baseia em duas visões de natureza humana que são, fundamentalmente, incompatíveis. O artigo cita o exemplo de querer, simultaneamente, preservar a identidade pessoal (o “eu”) e, ao mesmo tempo, permitir mudanças biológicas ou cibernéticas tão radicais no corpo ou na mente que essa identidade seria irrevogavelmente alterada. 

Em linha semelhante, outro estudo afirma que o transumanismo, ao tentar universalizar o método científico e tecnológico como a única resposta válida para a condição humana, acaba por “mutilar o homem” ao desprezar sua busca por transcendência.

 Essa crítica é complementada pela observação de que a retórica transumanista frequentemente trata o corpo humano biológico como algo “arcaico” e “falível”. O corpo, nessa visão, não é algo a ser habitado ou aceito, mas sim um obstáculo a ser superado, corrigido ou, em última instância, extinto.
 
 

Reflexão para educação

Dado o seu olhar voltado para a ética, este ponto filosófico é particularmente relevante. Como educadores, somos levados a questionar: que concepções de “humano” estamos tacitamente transferindo às futuras gerações em nossas práticas pedagógicas? O movimento transumanista não é neutro; ele ativamente desafia pressupostos clássicos que fundamentam a nossa sociedade, como a dignidade humana inerente, a interdependência entre os indivíduos e a aceitação da vulnerabilidade — todos estes são temas centrais e inadiáveis em qualquer proposta de educação ética.