– Nossos projetos nunca dão certo! Por quê? (pergunta uma professora de escola de Ensino Fundamental).
Na prática, podemos definir várias principais razões para o insucesso nos projetos, entre elas, estão os enganos que se cometem.
Os projetos normatizados, muitas vezes com carga corporativista e ideológica, diferentemente dos projetos pedagógicos, podem trazer mal estar para quem os elabora como tarefa burocrática, para quem executa numa perspectiva de obediência e para quem avalia, que na maioria das vezes, é um observador externo.
Os enganos que se cometem sobre os projetos;
Engano n. 1: “O tema do projeto precisa ser algo que chame a atenção dos alunos”.
Por que é um engano?
Porque o tema não pode vir pronto de fora e “chamar a atenção” do aluno. O tema não pode ser definido pelo interesse da direção, da coordenação, do prefeito, da estatal ou outra. O tema deve ser definido a partir de consensos e interesses dos alunos. Professores e alunos criam estratégias e elaboram perguntas sobre o conteúdo previsto para um período letivo e assim despertam o interesse, de ambos, a partir da problematização, como fonte de investigação e, então de proposição de conteúdos. Dessas estratégias nasce o tema no contexto das curiosidades e dos interesses dos alunos e professores.
Engano n. 2: O projeto precisa ter um tema definido, um problema a resolver e alcançar soluções.
Por que é um engano.
Porque o projeto pedagógico não precisa encontrar soluções para um problema que, normalmente são diversos e interdependem de condições espaciais e temporais. Terá caráter pedagógico e formativo se elaborado e executado para gerar e construir conhecimentos sobre os conteúdos escolares porque problematizados e carentes de compreensão. Compreensão que não é única, mas com melhor potencial de entendimento se envolto em um contexto maior (o tema), mas nunca com foco exclusivo para a sua solução. “Olha a responsabilidade em encontrar a solução para regularizar o ciclo da água do planeta! (por exemplo)”
O problema precisa ser conhecido, entendido para então ser compreendido. se alguma solução surgir e houver, ótimo, excelente, mas esse não pode jamais ser o foco do projeto pedagógico, sob pena de lhe negarmos a condição processual.
Engano n. 3: Justificativa
Por vários motivos, sendo um deles a não predisposição, por parte de educadores, de elaborarem projetos justamente porque tem dificuldades para construir uma justificativa sólida, em torno de argumentos contextualizados e convincentes. O trabalho pedagógico com base em projetos justifica-se pela necessidade de construir conhecimentos a partir dos conteúdos contextualizados e reconhecidos como construções históricas e sociais, referenciados nos PCNs (Parâmetros Curriculares Nacionais), organizados pelas matrizes de habilidades e competências e por outros determinantes comunitários e pedagógicos. Quando a escola executa projetos para cumprir exigências e/ou obrigações corporativistas e interesseiras que vem de fora, este precisa ter argumentos para provar sua importância e a necessidade de que deve ser desenvolvido na escola, descritas em extensas justificativas, vilipendiando conteúdos de ordem formativa e eleitos como necessários porque alguém “provou” que este projeto precisa ser desenvolvido. Justificado, o projeto deixa de ser pedagógico porque alguém provou “por A mais B” que é necessário e deve ser desenvolvido na escola. Justificado, o projeto vira atividade extracurricular e se é extracurricular, é extra escolar e se é extra escolar não deve acontecer na escola. Assim, a justificativa deixa de ter importância em um projeto pedagógico, aliás, é desnecessária.
Engano n. 4: Estar no infinitivo
Por que é um engano?
Porque o infinitivo não faz nada. Quem faz pesquisas e produz conhecimentos como processo de ensino e aprendizagem são os alunos, os professores, os coordenadores, a comunidade escolar e as pessoas da comunidade convidadas para participar, porque a comunidade é o contexto da vida do aluno e tem muito a ensinar. Assim sendo o projeto pedagógico é composto de estratégias de ações de ensino e de aprendizagem com finalidades de criar e oportunizar experiências formativas. Ele permite visualizar quem vai fazer, o que vai fazer, como vai fazer para gerar qual aprendizagem? Exemplo:
- Os alunos da turma A serão divididos e 5 grupos:
O grupo 1 fará uma visita ao “seu” João para investigar sobre a água que chega a sua casa…
O grupo 2 fará uma entrevista com a D. Maria para investigar para onde vai a água que sai do chuveiro e da pia da cozinha…
O grupo 3 fará uma visita ao sítio do “seu” José para investigar se a água que os animais bebem é tratada…
Etc…
Por isso uma proposta pedagógica concebida como e a partir de projetos não pode estar no infinitivo. Precisa ser elaborada em conjunto com a turma, a partir de problematizações e de questionamentos, frutos de discussões prévias e da curiosidade dos alunos e professores e definir ações claras e focadas no processo de construção de saberes.
Engano n. 5: Estratégias
Por que é um engano?
- As estratégias deverão ser traduzidas em atividades problematizadoras direcionando para atividades investigativas e participativas, consensuadas como no exemplo anterior em que não podem ser no infinitivo.
- Os alunos da turma A serão divididos em 5 grupos:
O grupo 1 deve colocar uma pedra de gelo no sol e enquanto observam vão registrando em fotografias e textos a reação que ocorre. As fotos e os textos devem ser compartilhados na rede social para que toda turma possa observar e fazer comentários. O professor e alunos farão comentários tentando explicar as reações químicas e mudanças no estado físico da água a partir das mudanças de temperatura.
O grupo 2 deve colocar uma água para ferver e observar a transformação do líquido em vapor…
Ou seja, atividades de pesquisa com orientações de observação e descrição das etapas, dos processos, das reações do que acontece, permite a participação e o envolvimento dos alunos na construção de conhecimentos e não somente uma mera assimilação de informações prontas. Aprofunda e alarga o conteúdo escolar porque problematiza, instiga, motiva a aprendizagem.
Participação e envolvimento competente dos alunos, compromete, anima e entusiasma a aprender a partir da investigação e do reconhecimento de que se é capaz de criar e de compreender exatamente porque se participa. Algo bem diferente e muito mais dinâmico do que entregar o livro didático aos alunos para que leiam e respondam as questões sobre as transformações dos estados físicos da água. Nada vai gerar mais conhecimentos do que um projeto onde os alunos colocam “as mãos na massa” (ou, nesse exemplo, na água).

